Arte e (é) produto

Por Renato Mendes | 22 de Outubro de 2018 às 21h05

Em 2016 eu resolvi me arriscar em um curso de Processos Criativos, no Parque Laje, no Rio de Janeiro. Alguns amigos já tinham feito e as opiniões eram bem polarizadas! Para alguns a vida mudou, outros poderiam ter vivido sem perder tempo com a experiência. Eu já tinha assistido uma entrevista do Charles Watson, professor e criador do curso, então resolvi escolher a incerteza das aulas com temas como "O Sol na Barriga", na aposta de ter uma troca positiva com o Charles, independente do conteúdo.

E foi a melhor escolha, muito embora tenha custado um dinheiro relevante naquela época, que eu não tinha para pagar, mas qualquer quantia seria justa para a oportunidade que eu tive de revisitar e reconstruir minha visão sobre arte. Dentre incontáveis referências e conceitos, um dos que mais ficou marcado em mim foi uma visão bem simples e humilde: toda arte é uma moldura no tempo que te transporta e te faz pensar sobre algo muito importante, mas que está perdido na grande figura da vida.

Essa (re)construção me fez olhar com novos olhos os artistas que me impactavam, os livros que eu lia e as histórias que me contavam. Na prática, o curso não ensina processo nenhum para ser criativo. Na verdade ele mostra que o processo criativo passa por nós diariamente, a gente é que escolhe as molduras erradas pra pensar sobre ele. E, partindo desse conceito, comecei a parar pra tentar entender o que cada moldura que me era proposta significava na minha realidade. E, como bem disse Dani Nega em um show que estive recentemente, "por conta dessa natureza, a arte quase sempre é uma denúncia". Logo pensava: qual denúncia está sendo feita para mim nessa ou naquela moldura?

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E foi no término do curso que entendi essa nova relação entre tempo e espaço também para a minha profissão. Ora, se todo produto nasce para resolver um problema, e só vive enquanto esse problema existe ou se transforma num hábito mais benigno, naturalmente todo produto tem em si um sabor de denúncia em algum nível.

O livro High Tech, High Touch apareceu para mim um pouco depois desse curso, sacramentando essa nova visão sobre produtos e arte. Nele, Naisbitt discorre sobre os paradoxos contemporâneos como, por exemplo, tecnologias que aproximam e distanciam ao mesmo tempo. Em toda arte há um paradoxo, uma denúncia. Em todo produto também. Todo paradoxo é um ponto do liga-pontos que a gente ainda está demorando para achar o próximo número. Mas ele tá lá, só precisamos achar, ligar e ir para o próximo.

Comecei então a tentar entender o que cada produto denuncia em nossa vida. A Netflix denuncia a inadequação da lógica da TV à cabo ou uma latente vontade de consumir conteúdos um pouco mais profundos, mesmo que apenas em sua estética? Produtos como o Saladorama denunciam mais o problema da educação alimentar em comunidades carentes ou a nossa falta de fé que pessoas com menos poder aquisitivo podem sim estar preocupados com alimentação? O WhatsApp denuncia nossa paixão pela comunicação ou nossas bolhas de fake news?

Portanto, fica o desafio diário: quais denúncias você capta nas mensagens dos seus artistas favoritos? E dos seus artistas que não são favoritos? Quais molduras eles estão pedindo para você reparar? E no seu celular, quais produtos você usa? E quais molduras eles colocam em você?

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